Uma das maiores e ditas seguras centrais nucleares do mundo, a Kashiwasaki no Japão não resistiu ao forte abalo ocorrido no passado mês de Julho. A companhia japonesa responsável pela central, a TEPCO, pressionada pela opinião pública japonesa, “corrigiu” a informação inicial da fuga para o mar de 100 barris de água contaminada para 438 barris.
“Os problemas da central de Kashiwazaki-Kariwa provam que o Japão não está preparado, e nunca estará, para um desastre atómico, especialmente causado por um terramoto” afirmou Hiroaki Koide especialista em segurança nuclear da Universidade de Kioto.
A uns 105 km de Las Vegas no deserto de Nevada, Estados Unidos existe um lugar conhecido como Nevada Test Site no qual entre os anos 1951 e 1992 ocorreram 925 testes nucleares executados pelo exército norte-americano. Utilizaram todo o tipo de detonações sendo a maioria no subsolo. Actualmente a paisagem visível no Google Maps, composta por dezenas de crateras, evoca uma versão sinistra da paisagem lunar.
Segundo a Wikipedia, durante os anos 50, as nuvens radioactivas resultantes dos testes efectuados poderiam ser vistos a uma distância de 100 milhas em todas as direcções incluindo a cidade de Las Vegas onde se tornaram verdadeiras atracções turísticas. As explosões eram tão potentes que se sentiam sob o próprio solo da cidade.
A maior das detonações teve lugar a 6 de Julho de 1962 no âmbito da Operation Plowshare onde o exército norte-americano explodiu uma bomba de 104 kilotons que deslocou 12 milhões de toneladas de terra criando uma cratera de 390 metros de diâmetro e 100 metros de profundidade, visível do espaço.
Os objectivos desta operação seriam demonstrar que as armas nucleares poderiam ser utilizadas com fins pacíficos em grandes obras de engenharia como criar baías, acessos entre montanhas ou rasgar canais como o de Panamá. Felizmente tal ideia absurda nunca chegou a vias de facto.
Segundo um relatório do National Institute of Cancer publicado em 1997, as centenas de testes nucleares efectuados provocaram de 10.000 a 75.000 casos de cancro de tiróides na população de Nevada.
Sobre a ameaça nuclear que paira sobre as nossas cabeças ocorreu-me esta reflexão de Friedrich Nietzsche encontrada no seu livro “A Gaia Ciência”:
O maior trabalho dos homens foi até agora concordar sobre uma quantidade de coisas, e fazer uma lei desse acordo,... quer essas coisas fossem verdadeiras ou falsas. Foi a disciplina do espírito que preservou a humanidade, ... mas os instintos que a combatem são ainda tão poderosos que em suma só se pode falar com pouca confiança no futuro da humanidade.
Será o nuclear o maior desafio encontrado pela humanidade? Estará nas mãos da nossa geração a solução de, uma vez por todas, vencer os instintos poderosamente obscuros que nos cegam e impedem há milénios a paz de espírito e a construção de um futuro compassivo? Será a espécie humana tão insana que destrói tudo que toca? São perguntas que fazemos cerimoniosamente ao Universo mas em vão; as respostas correctas terão que ser encontradas por nós e em nós.
Creio que chegamos a um ponto de não retorno, ou seja, não podemos errar sob pena de desaparecermos do mapa - é a única certeza que temos…
A Comissão de Defesa Nacional da Câmara belga votou por unanimidade, a 7 de Março, a proibição da utilização de "munições inertes e placas de blindagem" de urânio empobrecido no território belga. Em 22 de Março a lei foi aprovada pelo Parlamento, com o voto unânime de todo o espectro político. Os deputados concordaram em que a fabricação, utilização, armazenagem, venda, aquisição, fornecimento e trânsito destes sistemas de armas convencionais deveria ser proibido. No último minuto a palavra "armas" foi apagada para garantir que a proposta de lei não abrangesse as bombas termonucleares estado-unidenses armazenadas na base da Força Aérea de Kleine Brogel. A Assembleia da República e o governo português, que está sempre a louvar as realizações europeias, têm aqui um excelente exemplo a seguir. A notícia está em Belgium Bans Uranium Weapons and Armour . A imprensa portuguesa que se diz "de referência" ignorou-a.
Fotografias chocantes de Gerd Ludwig da poluição que alastra nas antigas repúblicas soviéticas e das suas vítimas mais vulneráveis: as crianças.
Menino de 13 anos vítima dos testes nucleares ocorridos em Semey, Kazakistan. Nasceu cego e deformado.
Crianças deformadas, sem o antebraço. Nascidas na vizinhança de Moscovo. Os cientistas suspeitam que estas deformidades congénitas foram causadas por um mix de produtos altamente poluentes.
Crianças brincando num abandonado campo de exploração petrolífero no Azerbeijão.
Imagens da implosão de 4 torres de refrigeração da central nuclear de Chapelcross na Escócia. Em apenas 10 segundos as torres transformaram-se em 25.000 toneladas de escombros e pó. (mais aqui)
Os efeitos das armas com urânio empobrecido usadas no Iraque
Dentro de cinco mil milhões de anos o nosso Sol explodirá tornando-se uma estrela anã branca e isto abrangerá a Terra, segundo projecções da NASA.
A meia vida do urânio é de 4,5 mil milhões de anos.
Isto significa que no momento em que a Terra deixar de ser um planeta, apenas pouco mais da metade do urânio empobrecido (depleted uranium, DU) que o Exército dos Estados Unidos está a despejar no Iraque e em outros países por todo o mundo terá desaparecido. O resto do material radioactivo estará ainda a envenenar o povo iraquiano.
O U.S. Army revelou em Março de 2003 que despejará de 320 a 390 toneladas de DU durante a Guerra do Golfo — a primeira vez que este material foi alguma vez utilizado em combate — e estima-se que mais ainda foi despejado durante a actual invasão, embora ainda não haja contagem oficial.
As munições de urânio empobrecido são extremamente densas, tóxicas e moderadamente radioactivas. E apesar da evidência crescente de que o DU afecta negativamente a saúde dos combatentes e dos civis, a sua utilização está a aumentar.
As ocorrências naturais de urânio têm três formas: urânio 235, 234 e 238. Mais de 99 por cento do urânio da Terra é 238. O urânio 238 é muito menos radioactivo do que o urânio 235, razão porque este leva tanto tempo para decair.
As armas nucleares e as centrais nucleares exigem urânio altamente radioactivo, de modo que o 238 é removido do urânio natural por um processo conhecido como enriquecimento. O urânio empobrecido é o sub-produto do processo de enriquecimento do urânio.
Uma vez que a maior parte do urânio natural é 238 — o qual é quase inútil para a fabricação de armas nucleares e para a utilização em centrais — as fábricas de urânio enriquecido ficam com grandes quantidades de urânio 238, ou DU. De acordo com uma estimativa do grupo Nukewatch, do Kansas, os Estados Unidos têm mais de mil milhões de libras (453.592 toneladas) nos seus stocks. Este produto tem o dobro da densidade do chumbo e é mais tóxico do que este. O DU é utilizado para fabricar numerosos sistemas de sarmas, desde cobertura de bombas até balas e armaduras de tanques. As munições DU habitualmente são chamadas "Penetrators", como testemunho da densidade do material.
Michael e Vladimir, gémeos, 16 anos, de Belarus, Minsk. Michael sofre de hidrocefalia e é cinco minutos mais velho que Vladimir que é surdo.
A 26 de Abril de 1986, o reactor número quatro da central nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, sofreu o maior acidente conhecido na história. Com a explosão da estação de Chernobyl foram enviadas 190 toneladas de urânio radioactivo e grafite para a atmosfera, obrigando à retirada de 120 mil pessoas de uma região correspondente a uma zona de 30 quilómetros ao redor da central. O reactor nuclear esteve a arder durante dez dias, e os materiais radioactivos viajaram com a chuva e o vento para zonas longínquas da Rússia, Bielorrússia e Ucrânia.
Uma das consequências do acidente da central nuclear foi o aumento progressivo dos casos de cancro da tiróide (especialmente nas crianças), problemas do coração ou deformações congénitas.
Algumas fotografias impressionantes da tragédia acontecida em Hiroshima. Um testemunho da mais horrível destruição causada pelo ser humano. Durante anos as autoridades americanas zelosamente proibiram e destruíram centenas de fotografias sobre o massacre que pudessem “alterar a tranquilidade pública”.
Pensemos que isto aconteceu “ontem” (1945) entre os povos mais ricos e “cultos” do planeta. Como diria Cioran:
Eis o homem afastado do mundo e distante de si próprio. Só por abuso o classificaríamos entre os seres vivos, tão superficial é o seu contacto com a vida; o seu contacto com a morte não o é menos. Sem ter conseguido descobrir o seu lugar certo entre uma e outra, fez batota desde os primeiros passos: um intruso, um falso ser vivo, um falso mortal, um impostor.
Transportados em segredo, 326kg de urânio enriquecido seguiram de Dresden, Alemanha, para a Rússia, aí serão processados em combustível nuclear.
"Every kilogram of material that is moved is one less kilogram that could be used by terrorists to make a bomb,". "The total amount of 326 kg is the largest ever shipment ever done under our programme."
Brincando com o fogo! O risco sempre presente destes materiais deveria ser argumento suficiente para enterrar esta ideia fixa da energia nuclear pelo menos nos moldes em que funciona actualmente. Perseguimos o mito da energia barata e sempre disponível o que parece no mínimo irrealista. Uma central nuclear é uma bomba nuclear!
As maiores potencias nucleares – EU, China, França, Grã Bretanha e Rússia – contam actualmente com o equivalente a 100 milhões de bombas como a de Hiroshima, o suficiente para destruir sete vezes a Terra, afirmou o director do Uranium Medical Research Center (UMRC), Asaf Durakovic, no IV Fórum Internacional para Jornalistas sobre Protecção da Natureza em Monte Porzio Catone, perto de Roma. Desde a Guerra do Golfo contra o Iraque, de 1991, até agora, lançaram-se projécteis de urânio empobrecido com 3.061 toneladas de material radioactivo, disse. A UMRC, uma ONG fundada em 1997 com sede nos EU e Canada, questiona o uso da expressão “urânio empobrecido”, muito utilizada pelos militares.
O urânio natural extraído da natureza é enriquecido para ser utilizado como combustível nuclear num processo que dá origem, como subproduto, ao urânio empobrecido. Tanto este como o natural são compostos em mais de 99% do isótopo U238 . O material dito empobrecido perde apenas 1% do urânio total nos isótopos U234 e U235., assim o urânio empobrecido é quase tão concentrado como o natural e pode conter traços de plutónio (U236), afirma a UMRC.
Ex-coronel do exército dos EU, onde trabalhou como médico, Durakovic percebeu os riscos dos novos armamentos atómicos quando iniciou consultas aos soldados americanos chegados do Iraque contaminados com a radiação de projécteis também utilizados nos conflitos dos Balcãs nos anos 90, na ofensiva americana contra o Afeganistão desde 2001 e na segunda guerra contra o Iraque, iniciada em Março de 2003. Em 2000, Durakovic levava 12 anos como especialista em medicina nuclear no Departamento da Defesa, quando o governo americano o convidou a investigar a síndrome da Guerra do Golfo. Perante as conclusões obtidas, foi-lhe ordenada a interrupção das investigações sob pena de perder o emprego.
Continuou investigando por sua conta e risco e comprovou não só a existência do isótopo U238 no organismo dos veteranos como também a existência de plutónio. Sabe-se agora que boa parte das munições fabricadas nos EU contêm esse outro elemento radioactivo. Os mísseis com isótopos de urânio, que perfuram facilmente tanques de guerra, espalham uma nuvem radioactiva na atmosfera. A contaminação produz-se principalmente quando estes resíduos são inalados pelos soldados ou pelas comunidades atacadas. Através do sistema respiratório, o urânio chega aos ossos e acaba comprometendo o sistema imunológico, explicou Durakovic.
Nos últimos 60 anos, tem aumentado e acumulado o lixo radioactivo no planeta pondo em perigo a vida terrestre, afirmou. Há cerca de meio milhão de metros cúbicos destes resíduos de alto nível gerados pela produção de armas nucleares e mais de 40.000 toneladas de combustível usados nos reactores das centrais produtoras de energia.
Porquê as centrais nucleares não respeitam o meio ambiente?
Porque as centrais nucleares são, na realidade, bombas atómicas que produzem electricidade.
Porque são uma fábrica de Plutónio (Pu-239), um elemento inexistente tanto na biosfera como na crosta terrestre. O Pu é um elemento extremamente tóxico (química e radioactivamente), e, além disso, é um material básico para fabricar bombas atómicas que os arsenais militares e militaristas procuram (10Kg de Pu é suficiente). Uma central nuclear de 1.000MW de potência eléctrica produz entre 200 a 300 kg de Pu-239 cada ano, quantidade suficiente para fabricar entre 20 a 30 bombas atómicas.
Porque emitem, em funcionamento normal, para a água e para o ar, quantidades nada desprezíveis de radioactividade. Uma central nuclear de 1.000MW de potência eléctrica emite na ordem de 9.500 Becquerelios por cada kWh gerado. Isto significa mais de 240 mil milhões de Bq por cada ano de funcionamento (1Bq = 1 desintegração/segundo).
Porque para obter o combustível que precisa para iniciar o seu funcionamento, uma central nuclear de 1.000MW(e) requer a extracção do subsolo de mais de um milhão de toneladas de Urânio, removendo mais de seis milhões de toneladas de rochas (o simples facto de extrair Urânio do subsolo significa introduzir na biosfera produtos radioactivos que permaneciam até à sua extracção, retidos na crosta terrestre de forma segura, contribuindo para o envenenamento radioactivo dos sistemas naturais). Uma vez extraídos estas colossais quantidades de mineral Urânio, são transportados para as fabricas de concentração do mineral, donde, por procedimentos mecânicos e químicos, obtém-se umas 1.000 tons de óxido de Urânio (U308) ou torta amarela (yellow cake), gerando-se neste processo mais de um milhão de tons de resíduos sólidos e líquidos, denominados estéreis do minério de Urânio (que contem 85% da radioactividade original do mineral), os quais permanecem abandonados nos arredores das fábricas de concentrados emitindo radioactividade (Rádon-222) para o ar e lixiviando produtos radioactivos nas águas superficiais e subterrâneas durante séculos. Da torta amarela, nas fabricas de conversão, obtém-se mais de 1.000 tons de Hexafluoro de Urânio (um gaz) com o qual, nas fábricas de enriquecimentoobtém-se um pouco mais de 100 tons de Hexafluoro de Urânioenriquecido no seu isótopo U-235, o qual, depois se converte em 85 tons de óxido de Urânio (sólido) que servem para a fabricação das barras de combustível contidas na primeira carga do reactor nuclear. Em cada uma das fases, fábricas de conversão, fábricas de enriquecimento, fábricas de combustível, geram-se quantidades nada desprezíveis de resíduos radioactivos, entre eles Urânio empobrecido (mais de 1.000 tons por cada carga inteira de combustível num reactor)que a indústria nuclear concede a custo zero, às fabricas de armamento para serem utilizadas no recobrimento de todo o tipo de munição (desde mísseis até às balas).
Porque para obter o combustível que precisam para o seu funcionamento, as centrais nucleares necessitam gastar enormes quantidades de combustíveis fósseis (contribuindo para a emissão de grandes quantidades de gases de efeito de estufa): para a extracção do mineral de Urânio na mina, para o tratamento do mineral nas fábricas de concentrado para obter a torta amarela; para a transformação do óxido de Urânio em hexafluoro de Urânio para obter Urânio enriquecido no seu isótopo U-235; para a transformação do hexafluoro de Urânio enriquecido em óxido de Urânio enriquecido necessário para fabricar o combustível nuclear que necessita qualquer central nuclear necessita. E para o transporte desde as minas às fábricas de concentração do mineral, destas às fábricas de transformação, destas às fábricas de enriquecimento, destas às fabricas de combustível e destas aos reactores.
Porque se realizarmos uma análise do ciclo de vida de uma central nuclear conclui-se que as emissões de gases de efeito de estufa são entre uma terça e uma quinta parte das emissões de uma central térmica de ciclo combinado de gás de igual potência, sempre que o Urânio se obtenha de minérios de elevada riqueza. No caso em que proceda de minérios de baixo conteúdo de Urânio, uma central nuclear e todo o seu ciclo ( da fase a montante e a jusante à central) podem gerar mais gases de efeito de estufa que uma central térmica de ciclo combinado de igual potencia.
Porque cada ano se deve substituir uma terça parte do combustível nuclear contido no núcleo do reactor. E o combustível descarregado anualmente contem umas 30 tons de Urânio (com um conteúdo de U-235 superior a 0,7%), entre 200 e 300 kg de Plutónio, mais uns 1.000kg de produtos de desintegração e actínidos, passando a engrossar os denominados resíduos que devem ser armazenados e isolados da biosfera, de forma permanente, durante milhares de anos.
Tudo isto, em funcionamento normal, no caso de acidente as consequências podem ser catastróficas, como o demonstrou o acidente da central nuclear Lenine, de Chernobil.
Este é o legado de envenenamento radioactivo que uma central nuclear nos deixa.
Este artigo da responsabilidade de Jorge Nascimento Rodrigues não vincula inteiramente a posição do IF sobre as questões ligadas à produção nuclear de energia, mas sendo Cesare Marchetti um veterano especialista nestas matérias, achamos útil para uma reflexão aberta e profunda, a sua publicação no IF.
«O nuclear é incontornável»
diz Cesare Marchetti, o mais velho futurista europeu do nuclear.
O garrote geopolítico do petróleo e do gás natural trouxe o nuclear de regresso. Os sinais de falhanço da estratégia norte-americana de ocupação da geografia do ouro negro e de incerteza na contenção das regiões euro-asiáticas e magrebinas do gás, ajudou ao fim da diabolização do nuclear entre os fazedores de opinião e nos media.
Mas, Cesare Marchetti, um físico italiano de 79 anos, um dos mais velhos futuristas europeus defensores do nuclear para o desenvolvimento da economia do hidrogénio, diz que o retorno desta energia ao palco era inevitável, não fundamentalmente por causa da turbulência geopolítica, mas por "culpa" do ciclo longo económico e tecnológico, conhecido por "vaga de Kondratieff".
Sexto sentido
«A energia nuclear é incontornável. Ela e o gás natural dominarão o mercado de energias nos próximos 50 anos. Isto que venho dizendo desde os anos 1970, voltei a repeti-lo num relatório para a Comissão Europeia em 1990 [intitulado "Our Society and Nuclear Energy"]. Nessa ocasião afirmei que o regresso do nuclear dar-se-ia quando o estado de espírito das sociedades, moldado pelo ciclo longo de Kondratieff, permitisse a propagação de sinais positivos. O revivalismo do tema não está directamente ligado ao preço do petróleo ou à incerteza política», diz-nos Marchetti, que continua a trabalhar como investigador no International Institute for Applied Systems Analysis, na Áustria, para onde entrou em 1974 como cientista sénior.
O italiano apontou, então, para uma janela de oportunidade a partir de meados dos anos 1990 e à medida que a viragem para um novo ciclo longo se aproximasse. «Eventos dramáticos ocorrerão mais tarde ou mais cedo que farão a trajectória realinhar-se com a predição», previu ele. Esta convicção no ciclo longo permite-lhe «um sexto sentido para perceber o que está para vir», ironiza Marchetti, que hoje passa uma boa parte da sua vida na sua "villa" e nas suas vinhas perto de Florença.
Há já no horizonte sinais claros de mudança de política pública nos Estados Unidos, com o anúncio em 2005 da selecção de dois locais para novas centrais nucleares - o que não acontecia desde 1978 - e da publicação do "Energy Policy Act" que financia um projecto de nova geração de centrais para produção de electricidade e hidrogénio, incluindo a redução de lixo nuclear.
A Administração Bush pediu, também, ao Congresso 250 milhões para o próximo ano fiscal, mas afirma que isso é parte de um orçamento de 13 mil milhões de um programa até 2010, divulgado há quatro anos atrás. O lóbi da indústria nuclear antecipou já a construção de 12 a 15 novas centrais até 2015 nos EUA, segundo o Nuclear Energy Institute. Marchetti refere inclusive «uma operação muito inteligente por parte dos americanos nos últimos anos ao reorganizarem as centrais nucleares em operação - sem construírem sequer uma nova ganharam um extra de 50% das antigas, ou se prefere criaram 50 novas centrais 'virtuais'». «Não vão poder repeti-lo, mas é um excelente movimento para recomeçar», conclui.
Cesare Marchetti tornou todo este complexo assunto mais fácil de entender por leigos, desde que em 1974 apresentou um gráfico sobre a história da substituição das energias primárias dominantes desde 1850, baseado na múltipla concorrência entre energias e na evolução das quotas de mercado. Reformulou-o em 1984 (altura em que divulguei o trabalho na revista do semanário Expresso), para sugerir que o pico da quota do petróleo teria ocorrido e que o gás natural estava a emergir como a próxima energia dominante. Ainda que alguns "ajustes" tenham de ser feitos a essas curvas (ver On the Long-Term History of Energy Markets and the Chances for Natural Gas), tendo em conta as políticas de substituição depois de 1985, «o modelo, depois de algumas oscilações, voltará à sua tendência», sublinha o cientista que se meteu na aventura nuclear logo em 1950 com um primeiro emprego num centro em Milão criado pelos grandes grupos italianos (Montecatini, Edison, Fiat) vocacionado para o tema então emergente.
A ilha do hidrogénio
Em virtude de não ter havido ultimamente nenhuma invenção radical no âmbito da energia - como ocorrera nos anos 1940 com a pilha nuclear de Enrico Fermi, que abriu caminho para os primeiros reactores nos anos 1950 -, Marchetti viu na fissão nuclear a energia de "intervalo" depois de atingido o pico do gás. O peso da energia nuclear na produção mundial de energias primárias era em 2003 (últimos dados da EIA norte-americana) de 6% (quase tanto como a hidroeléctrica). Marchetti apontava, nas suas simulações dos anos 1980, para 10% em 2020.
Os estudos mais recentes, elaborados por uma equipa multidisciplinar do MIT em 2003 [The Future of Nuclear Power], apontavam para um quota do nuclear no mercado mundial de electricidade de 19% em 2050 (no caso dos países desenvolvidos, de 30%), apenas mais uns modestos 3% do que actualmente.
Por isso, segundo Marchetti, o disparo do nuclear não se acantonará na área da produção da electricidade (como hoje é discutido, face a exemplos como a França e a Lituânia com mais de 70%, ou a Bélgica com 58% e a Suécia com 47%): «A solução é usar o nuclear para produzir o hidrogénio, um combustível extremamente flexível e útil. O mercado-alvo para o hidrogénio é o não-eléctrico. Mas, claro, que as escolhas em detalhe serão ditadas pelas oportunidades», diz este pioneiro da economia do "Hway" (caminho do hidrogénio).
Em 1973, no auge do primeiro "choque petrolífero", chegou a sugerir junto de audiências japonesas (entusiasmadas) a ideia de um atol no Pacífico que se transformaria na primeira "ilha do hidrogénio com base no nuclear" por 50 mil milhões de dólares de investimento. Marchetti recorda essa sugestão como «uma imagem telescópica do futuro», e conclui a nossa conversa: «O começo pode ser bem mais modesto».
Mas Marchetti continua a acreditar que, por volta de 2025, poderá ocorrer uma "irrupção" de algo novo (que tem designado por "fusão nuclear ou solar"), que, no entanto, terá um longo caminho a percorrer, como referia no seu artigo de síntese sobre a evolução energética [Society as a Learning System] publicado em 1980, que continua a ser a "bíblia" do que ele pensa.
A sua mais recente paixão pouco tem a ver com o nuclear, mas com um conterrâneo seu, Leonardo da Vinci. «Estou a escrever um livro sobre o outro Leonardo», diz com ar intrigante. Nos últimos anos este físico tem andado a tentar "descodificar" o que está oculto na obra de da Vinci, aquilo que se ele revelasse às claras, na altura, lhe teria custado a cabeça. Cesare Marchetti tem descoberto vários criptogramas que apontam para descobertas no universo, crítica social violenta e histórias pessoais dramáticas do artista.