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Palavras de Edgar Morin

O pensamento ecologizado


Examinemos o aspecto paradigmático do pensamento ecologizado. Dou ao termo “paradigma” o seguinte sentido: a relação lógica entre os conceitos-mestres que governam todas as teorias e discursos que dependem dele. Assim, o grande paradigma que guiou a cultura ocidental durante os séculos XVII ao XX desuniu o sujeito e o objecto, o primeiro foi remetido à filosofia, o segundo à ciência, tudo o que era espírito e liberdade dependia da filosofia, tudo o que era material e determinista dependia da ciência. É este o quadro onde se engendrou a disjunção entre a noção de autonomia e a de dependência. O pensamento ecologizado deve necessariamente romper este paradigma e referir-se a um paradigma complexo em que a autonomia do vivente, concebido como ser auto-eco-organizador, é inseparável da sua dependência.


O organismo de um ser vivo (auto-eco-organizador) trabalha sem cessar, degrada a sua energia para auto manter-se; tem necessidade de renovar alimentando-se no seu meio ambiente de energia fresca e deste modo, depende do seu meio ambiente. Assim precisamos da dependência ecológica para assegurar a nossa independência. A relação ecológica conduz-nos muito rapidamente a uma ideia aparentemente paradoxal: a de que para ser independente, é necessário ser dependente; quanto mais se quer ganhar independência, mais é necessário pagá-la com a dependência. Assim, a nossa autonomia material e espiritual de seres humanos depende, não só de alimentos materiais mas também de alimentos culturais, de linguagem, de um saber, de mil coisas técnicas e sociais. Quanto mais a nossa cultura permitir o conhecimento de culturas estrangeiras e de culturas passadas, mais possibilidades terá o nosso espírito de desenvolver a sua autonomia.


Mais profundamente, a auto-eco-organização significa que a organização do mundo exterior está inscrita no interior de nossa própria organização vivente. Assim o ritmo cósmico da rotação da Terra sobre si mesma, que alterna o dia e a noite, encontra-se não só no exterior de nós, mas também no nosso interior, em forma de relógio biológico interno; este determina nosso ritmo nocti-diurno autónomo, o qual manifesta a sua periodicidade num sujeito que viva fechado numa gruta. Também, o ritmo das estações está inscrito no interior dos organismos vegetais e animais. Algumas plantas começam a segregar a sua seiva a partir do aumento da duração do dia, outras a partir da intensificação da luz solar. Para a maior parte dos animais, a primavera desencadeia a parada nupcial. Dito de outro modo, o ritmo cósmico externo das estações é um ritmo que se encontra no interior dos seres vivos e nós temos integrado no interior das nossas sociedades a organização do tempo solar ou lunar; o nosso calendário e as nossas festas. O mundo está em nós ao mesmo tempo que estamos no mundo.


Devemos abandonar totalmente a concepção insular do homem. Não somos extra-viventes, extra-animais, extra-mamíferos, extra-primatas. Não estamos separados dos primatas, não nos convertemos em super-primatas ao desenvolver qualidades esporádicas só encontradas nos símios, como o bipedismo, a caça e o uso de instrumentos. Não estamos separados dos mamíferos, somos super-mamiferos marcados para sempre pela nossa relação íntima, quente, intensa de ser inacabado, não só no nascimento, mas também até à morte, com nossa mãe, nossos irmãos e irmãs, fontes de amor, de afecto, de ternura, de fraternidades humanas. Somos super-mamiferos, super-vertebrados, super-animais, super-viventes. Esta ideia fundamental significa que não só a organização biológica, animal, mamífera, etc., se encontra na natureza exterior de nós, mas também na nossa natureza, no nosso interior.


Como todo os seres vivos, somos também seres físicos. somos constituídos por macro-moléculas complexas formadas numa época pré-biótica terrestre: os átomos de carbono destas moléculas, essenciais à vida, formaram-se do encontro entre núcleos de hélio no forno de sóis que precederam o nosso. Todas as partículas ligadas no hélio datam dos primeiros segundos do universo. Não estamos unicamente num mundo físico: este mundo físico, na sua organização físico-quimica, está constitutivamente em nós. Aqui temos um princípio fundamental do pensamento ecologizado: não se pode separar um ser autónomo (Autos) do seu habitat cosmofisico e biológico (Oikos), como também é essencial pensar que Oikos está em Autos sem que por isso Autos deixe de ser autónomo. No que concerne ao homem, este é relativamente estrangeiro num mundo que, apesar de tudo, é o seu. Efectivamente, somos integralmente filhos do cosmos. Mas, pela evolução, pelo desenvolvimento particular do nosso cérebro, pela linguagem, pela cultura, pela sociedade, somos estranhos ao cosmos, distanciamo-nos do cosmos e marginalizamo-nos dele.


Para compreender a nossa situação, adoptarei a parábola do matemático Spencer-Brown. Dizia ele mais ou menos o seguinte: «suponhamos que o universo quisera tomar consciência de si. Que faria? Pois bem, o universo estaria obrigado a separar de si uma espécie de pedúnculo, de tentáculo que pudesse ver-se a si mesmo. Mas, no momento que este braço se separa, em que a extremidade deste braço se volta sobre o universo para observá-lo, deixa de fazer parte dele verdadeiramente e torna-se um estranho. Assim, o universo fracassa em conhecer-se aí onde teve êxito; no momento em que conseguiu conhecer-se, é demasiado tarde: o que conhece autonomiza-se de alguma maneira». Esta parábola traduz a nossa situação. Alguns cogitam definir o homem pela disjunção e oposição à natureza; outros pensaram defini-lo pela integração na natureza. Vivemos nesta situação paradoxal.


Chegamos ao momento histórico em que o problema ecológico nos obriga a tomar consciência da nossa relação fundamental com o cosmos e da nossa estranheza perante ele. Toda a história da humanidade é uma história de interacção entre a biosfera e o homem. O processo intensificou-se com o desenvolvimento da agricultura, que modificou profundamente o meio natural. Criou-se uma espécie de dialógica (relação de ordem complementar e antagónica) crescente entre a esfera antroposocial e a biosfera. O homem deve deixar de agir como um Gengis Kan da periferia solar. Deve considerar-se não como o pastor da vida, mas como o co-piloto da natureza. A partir de agora, a consciência ecológica requer uma pilotagem dupla: uma, profunda, que vem de todas as fontes inconscientes da vida e do homem, outra, da nossa humana inteligência consciente


Edgar Morin

 
 
 
 

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